domingo, 11 de dezembro de 2011

Survival job - fim de um ciclo -capitulo 1

Semana passada foi a minha última semana no meu "survival job". Na verdade, amanhã, segunda, vai ter uma pequena extensão. Meu substituto pediu para eu ficar mais um dia com ele para ensinar o serviço. Não que seja nada dificil, mas é tudo muito cheio de detalhes. O que vale para uma parte da warehouse não vale para a outra e por aí vai.
Eu fiquei na empresa 1 ano e 5 meses, uma eternindade, rs. Talvez tenha sido a experiencia mais forte que eu tive na minha vida. Sempre trabalhei em escritórios e mesmo quando fui para o campo em montagens nunca passei por situações como as que eu passei nesse período. Vou dar alguns exemplos:
- Meu substituto tem aproximadamente 60 anos, ele tem o ingles como sua primeira lingua (é irlandes) e está aqui no Canadá há 35 anos. É um cara muito simpático e trabalhador. Trabalha com as agencias de emprego temporários porque não tem outras opções. Semana retrasada conseguiu trabalhar apenas um dia na semana e na semana passada conseguiu trabalhar quatro!!! Na quinta feira ele foi trabalhar numa empresa que distribui pneus americanos aqui no Canadá, tinha que subir em pilhas de pneus de 5m de altura (obviamente como é comum por aqui, sem nenhuma proteção) e carregar os 2000 pneus. No final da tarde ele estava quebrado, mas como precisava do dinheiro ele ia voltar no dia seguinte. Mas eis que recebeu um telefonema da empresa para a qual eu trabalho (ele já tinha trabalhado com a gente alguns meses atras), perguntando se ele queria o meu lugar. E o que é "survival job" para mim é o trabalho do sonho para outros, foi impressionante a cara de felicidade dele quando ele me contou do telefonema!!!! Eu pensei que ele ia chorar de felicidade. A minha função apesar de teoricamente ser temporaria, é full time, não tem essa coisa de renovação diária do contrato. E para o meu amigo irlandes isso significa não mais passar fome!!!
- Trabalhei com um zambiano (natural da Zambia, mas de background indiano). Ele gostou muito do trabalho e da gente, o cidadão estava entusiasmado. Mas acabou a frente de trabalho dele e quando ele estava indo embora no final da tarde, a mocinha da agencia que cuida da gente, falou para ele: tchau, o trabalho acabou. Poxa precisa ver a cara dele, ele só falava, deve haver algum engano, eu trabalhei direitinho. E a moça, bom tchau, pode ir embora. O cara saiu da empresa em estado de choque. Eu imagino como ele deve ter sonhado com o emprego (ele entendeu que era full time) e com o altissimo salario de 10.25 a hora.
- Trabalho com uma indiana de Goa (os indianos de Goa são os indianos brasileiros, eles por causa dos 400 anos de dominio portugues tem a cultura parecida com a nossa, tem nomes portugueses (pena que em geral eles pronunciam mal o próprio nome deles, rs), são cristãos e alguns deles até falam portugues com fluencia) que também é temporaria. Tivemos um período de baixa no trabalho e ela ficou 15 dias em casa!!! Ela já é uma senhora e é muito pequena fisicamente, deve ter 1m50 e pesar uns 45 kg (várias vezes eu carreguei caixas para ela, por que via que ela não tava se aguentando com o peso, rs) e ela me contou como é ficar 15 dias sem receber. Triste.
Como essas tenho muitas outras histórias, praticamente diariamente eu me via face a face com a miséria. E não podemos dizer que essas pessoas são vagabundas, despreparadas ou algo assim. É gente muito trabalhadora, que está há bastante tempo por aqui e que tem um nível cultural entre bom e excelente. O problema é que aqui no Canadá (e acho que nos EUA é a mesma coisa) sumiram os trabalhos intermediários. Com a globalização esses trabalhos foram para a India, para a China, e para o Brasil. Acabou por aqui aquela história de vida de um Lula por exemplo. Entra na empresa como ajudante e vai se esforçando, aprendendo e acaba com um trabalho intermedíário. Aqui o trabalho é pegar as caixas que vem do terceiro mundo ou dos EUA e colocar dentro dos caminhões para despachar para o Canadá inteiro.
Mas é triste ver, que esse pessoal está morando em condições adversas, em basements escuros ou apartamentos bagunçados, comendo uma carninha somente quando a empresa vai bem e esperando que eu pedisse demissão (eu ganhava mais que todos eles, pouquinha coisa mas algo que todos cobiçavam). Uma colega próxima minha ficou chateada comigo ontem porque eu não a avisei antes que eu ia embora porque ela queria por o pai dela trabalhando lá, septuagenário e cardiaco!!!!
Bom, esse post já ficou muito comprido e eu nem comecei a contar o que eu queria. Vou faze-lo em capitulos.

Um comentário: